PARANAUÊ NERVOSO REVIEW: THE LAST GUARDIAN

A Chegada do Último Guardião

Eis então que, quase 12 anos passados do lançamento do (agora) cult Shadow of the Colossus, The Last Guardian é lançado.

Foram longos 10 anos de desenvolvimento desde o primeiro leak do jogo em uma revista (Playstation Lifestyle), e em torno de 8 anos desde seu primeiro teaser, que, na verdade, era um vídeo gravado mas com playback acelerado para esconder os graves problemas de performance com o framerate do jogo rodando no PS3.

Problemas e histórias sobre o desenvolvimento do jogo à parte – isso pode ser abordado futuramente –, muito recentemente tive a oportunidade de completar o tão aguardado “Trico”.

Uma viagem de volta no tempo

Poder finalmente jogar The Last Guardian me fez viajar no tempo e reviver os idos de 2005, enquanto jogava Shadow of The Colossus. É claro que esse sentimento nada tem a ver com a elegante apresentação visual da mais recente obra de Ueda, tópico que abordarei em breve. O que me cativou quando pus as mãos em ICO e, depois, em Shadow of the Colossus, que tinha uma abordagem semelhante e ao mesmo tempo diferente, foi a sua simplicidade mecânica, o visual livre de menus e a quase ausência de músicas. Então, posso dizer que o jogo nos remete à sensação inequívoca de estar jogando uma obra do Ueda, e isso quer dizer muito.

Tal como seus antecessores, Last Guardian é um jogo contemplativo, e muito de sua beleza se deve à atenção aos pequenos detalhes, desde o vento uivando e balançando cada folha, pedaço de roupa, cabelo, pelos e penas, até os pássaros voando à distância.

É também nostálgico o estilo artístico, muito semelhante ao que antes se via em ICO e Shadow of the Colossus. Construções enormes, fortalezas de pedra, cheias de pontes e caminhos com muitas árvores, muito verde e espelhos d’água espalhados, criando um cenário de beleza ímpar, destacado pelo excelente trabalho de iluminação. Os efeitos HDR, de alternância da luz de ambientes internos e externos são excelentes, assim como as cenas com saturação maior de luz, que nos faz forçar involuntariamente os olhos, e que traduzem o esmero dos artistas gráficos que ajudaram a dar vida a esta obra.

Falando em vida, a estrela do jogo com certeza é Trico. O monstro, que é algo como um pássaro com traços felinos (what?!?), é de longe a parte mais impressionante da apresentação de Last Guardian. Acredite, não há um movimento sequer da “fera” que não seja plausível e que pareça artificial. A maneira que as patas trabalham, as expressões na cara do animal e o movimento da boca são trazidos à vida de maneira realmente impressionante. É algo que deve ser visto!

Este é Trico, seu companheiro.

No jogo, você controla um garoto similar ao Ico, mas sem chifres, e seu objetivo é sair de um tipo de “templo” junto de seu companheiro, Trico. Você começa acordando em uma espécie de fosso, próximo a algumas correntes. Na ponta da corrente está aquele que será seu parceiro de jornada, e é aí que começa a história de interação entre o menino e a besta. Soou similar a ICO, que logo nos primeiros minutos de jogo encontra a Yorda? Não é mera coincidência.

Novamente, sem querer soar repetitivo, mas tal como ICO o objetivo aqui é a resolução dos puzzles em busca de uma saída, de maneira que você consiga progredir junto com Trico. Claro, dada a proporção da criatura – quase do tamanho de um colosso – a escala foi aumentada consideravelmente. Conforme o jogo progride, evolui também a afeição entre eles. Os movimentos do garoto ficam cada vez mais sincronizados com os de Trico, e ele aprende a dar comandos à besta para lhe ajudar a alcançar lugares altos, dar mergulhos – e até mesmo a lançar raios através de um pequeno espelho usado para mirar, artefato este que é especialmente importante para a evolução da história.

Dessa vez, você não participará de maneira ativa nos combates, ficando a cargo de Trico eliminar os oponentes. Suas ações serão limitadas a fugir ou, em outros casos, ajudar Trico atrapalhando os oponentes que possuem uma forma de intimidar a criatura. Trico tem medo de algumas imagens, como de uma espécie de vitral com formato de um olho. Então, cabe a você remover tais peças de seu caminho sempre que possível, estejam elas penduradas ou sendo usadas como escudos para os oponentes.

Sombras sobre um colosso

Infelizmente, não foi isento de qualquer problema que o jogo chegou às prateleiras. Primeiro, tecnicamente, o jogo possui framerate instável, que acaba causando input-lag (uma espécie de lentidão) nos tempos de resposta do controle. Isso acaba atrapalhando principalmente em algumas partes que requerem certo cuidado ao andar, pois o garoto se movimenta ou de maneira furtiva, ou correndo. Não há uma transição suave na movimentação, em diferentes velocidades.

Outro grave problema é a câmera, que se mostra mais difícil de domar do que o próprio Trico em determinados momentos. Por mais de uma vez morri porque a câmera se moveu no exato momento em que precisei executar um pulo ou porque, ao entrar em uma câmara mais apertada, a câmera mudou sua posição deixando tudo escuro. Leva alguns segundos até que se consiga reposicionar a câmera adequadamente.

A interação com a “fera” também não se dá sem nenhuma dificuldade. Acabei sendo derrubado algumas vezes por ela em locais mais estreitos, e morrendo. Nem sempre ela obedece aos seus comandos como você gostaria. A pergunta que fica é: seria isso intencional para dar “vida” à criatura ou é um “bug”? Perdi quase 30 minutos tentando descobrir como fazê-la comer em uma parte do jogo em que você é obrigado a alimentá-la para que ela possa recuperar suas forças.

Por último, mas não menos importante: apesar de o jogo não ter menus e nem tutoriais, tal como estamos acostumados atualmente, durante todo o jogo há pequenos avisos de que botões você deve pressionar para executar algumas ações, como descer uma escada, ficar pendurado, puxar uma alavanca… Entendo que, nas partes iniciais do jogo, é uma informação relevante mas, depois de 15 horas indo para lá e pra cá, resolvendo os mais diferentes puzzles, os avisos se tornam totalmente dispensáveis, certo?

Quem espera sempre alcança

A pergunta que fica é : valeu a pena esperar tanto tempo pelo lançamento do jogo?

A resposta é: depende. Considerando que o jogo ficou quase 10 anos em desenvolvimento e criou-se uma expectativa sobre ele, é um pouco frustrante que o jogo sofra de alguns problemas tão banais nos dias de hoje, como as falhas de câmera, a questão da UI (os avisos dos controles) mas principalmente, o problema com o framerate. Eu sei que Shadow of the Colossus sofria de grandes problemas de performance quando lançado no PS2 (que, diga-se de passagem, foram completamente sanados no port HD que saiu para PS3) e isso não tornou o jogo menos memorável. Minha opinião? Os problemas de Last Guardian não tiram o brilho da obra, principalmente para os fãs dos jogos anteriores, mas é um pouco decepcionante sim, afinal, depois de 10 anos, gostaríamos de algo perfeito, certo? Sem contar que, diferente daquela época, hoje vivemos em uma era do 4K, 60fps, Digital Foundry e tudo mais, o que tornou os usuários muito mais exigentes, garantindo-lhes um poder de crítica muito maior e com mais peso que no passado.

Para mim, apesar de alguns momentos de irritação com os controles, a experiência geral e o final belíssimo do jogo compensaram, fora o fato de eu ter terminado a “trindade” lançada por Fumito Ueda. É uma obra que vale a pena ser jogada, mas que não é para todos os públicos, mas isso é algo que talvez nunca tenha sido seu objetivo.

Sei que sua intenção era de fazer com que nos importássemos com um animal artificial, e isso, ele conseguiu com louvor.

Na minha opinião, o jogo merece 4 de 5 PARANAUÊS.